quarta-feira, 24 de abril de 2013

Livro resgata a Escola de Minas, que barrou Santos Dumont e Carlos Chagas

Fundada or D. Pedro II, terceira instituição de ensino superior no Brasil formou elite intelectual e iniciou estudo da geologia, dando bases para Petrobras. Aviador e médico foram barrados por provas; Getúlio Vargas teve de fugir da cidade, após morte de aluno rival de seus irmãos


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Escola de Minas foi fundada em 1876, por D. Pedro II, em Ouro Preto
 

Fundada em 1876 pelo imperador D.Pedro II e terceira instituição de ensino superior do Brasil, a Escola de Minas, que hoje integra a universidade Federal de Ouro Preto, foi a primeira especializada em mineração e geologia no País. Com 137 anos, a serem completados em outubro e, em meio ao fenômeno do Pré-Sal, a escola ganha um livro comemorativo, em edição de luxo e capa dura, contando sua história. O lançamento será nesta quarta (24), no Clube de Engenharia, no Rio.
 
 
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Maleta de campo do geólogo francês Gorceix, fundador da escola
 
A faculdade teve papel estratégico para o crescimento, a modernização e o desenvolvimento do Brasil, como pioneira na formação de uma elite intelectual em área onde o País não tinha escola até então. O realizador do projeto foi o cientista francês Claude-Henri Gorceix, fundador e diretor, trazido para o Brasil com este fim pelo imperador. É de Groceix o mote em latim da escola, “Cum Mente et Malleo” (“Com a mente e o martelo”). Para o francês, a mineralogia deveria ter a boa formação teórica aliada à prática da pesquisa, simbolizada pelo martelo, instrumento básico do geólogo no campo e no exame dos minerais.
Gorceix mantinha correspondência frequente com D. Pedro II e o mantinha informado sobre a organização e funcionamento da escola, que o imperador visitou em 1881. No encontro, assistiu a uma aula do acadêmico e fez um comentário peculiar em seu diário de viagem: “Gostei de ouvir a exposição de ideias tão civilizadas a 80 léguas do Rio de Janeiro, de onde, felizmente, já começou a irradiar-se o progresso para todo o Brasil.”
 
 
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Biblioteca da escola tem livros raros
 
Fez ainda uma segunda visita oito anos depois, acompanhado da Princesa Isabel e D. Pedro Augusto, apenas cinco meses antes de ser destronado pela República.
A Escola de Minas formou muitos alunos que depois se tornaram políticos – como o senador Alfredo Baeta Neves (MG) e o prefeito de Belo Horizonte Américo Giannetti (51-54) –; matemáticos importantes, como Antônio Moreira Callaes; além de geólogos importantes, como Carlos Walter Marinho Campos – a quem a Petrobras aponta como estruturador da Bacia de Campos e formulador da política de exploração em águas profundas, embrião do Pré-Sal, e o ex-presidente da Petrobras Irnack Carvalho do Amaral. A empresa petrolífera é uma das patrocinadoras do livro.
A primeira aluna mulher a se formar foi Maria José de Oliveira Castro da turma de 1957, em Engenharia de Minas, Metalurgia e Civil.
 
Santos Dumont e Carlos Chagas foram barrados; Getúlio teve de ir embora
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Santos Dumont foi reprovado e não conseguiu entrar na Escola de Minas
 
Curiosamente, a tradicional Escola de Minas também reprovou e rejeitou a entrada de dois dos maiores ícones históricos das ciências do Brasil: o inventor Alberto Santos Dumont e o pesquisador de doenças tropicais Carlos Chagas.
Santos Dumont matriculou-se no Curso Fundamental da escola, preparatório para as provas de acesso ao superior, em 3 de fevereiro de 1890, aos 16 anos. Seu pai, o engenheiro formado em Paris Henrique Dumont, tivera na cidade o primeiro emprego. O futuro pioneiro da aviação, porém, não foi aprovado nos exames e deixou a cidade em setembro, alegando não ter se adaptado à escola e ao seu “ensino rigoroso”.
Devia ser mesmo porque, cinco anos depois, o jovem Carlos Chagas, 17, também levaria pau na prova de admissão, após passar pelo Curso Preparatório da Escola da Minas. Como no caso do inventor, talvez tenha sido positivo para o País. Rejeitado em Ouro Preto, Chagas se matriculou na Escola de Medicina do Rio de Janeiro em 1897. Mais tarde, tornou-se grande pesquisador de doenças tropicais, estudioso da malária e revelou a enfermidade que levaria seu nome, doença de Chagas.



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Getúlio saiu fugido de Ouro Preto após morte de estudante rival de seus irmãos
 
             Além deles, outro que pretendia passar pelo Curso Preparatório da Escola de Minas, mas não ficou por lá foi o presidente Getúlio Vargas, entretanto por outro motivo. O assassinato a tiros do estudante paulista Carlos de Almeida Prado, em rixa com os irmãos de Getúlio Viriato e Protásio, fez os gaúchos deixarem a cidade mineira.
O livro mostra que a biblioteca tem obras raras, fruto da concepção do criador, Gorceix, como "Arte de los Metales (1640)", de Álvaro Alonso Barba, "Traité de Mineralogie” (1822-23), de René-Just Hauy e a edição de luxo do conjunto de dez volumes da “Histoire Naturelle des Oiseaux” (1771-1786), de George Louis Leclerc e “Voyage dand les provinces de Rio de Janeiro et de Minas Geraes” (1830), de Auguste Sainte-Hilaire.
Atualmente, a Escola de Minas tem nove cursos, a maioria de Engenharia (entre os quais o de Minas), Geologia e Arquitetura e 612 alunos, entre graduação e pós-graduação.
 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

"Aposta do governo para ensino médio é gerenciada por institutos"

Apenas Instituto Unibanco coordena gestão em escolas onde estudam 25% dos alunos da etapa. Outro gigante, Ayrton Senna, estreia este ano no Ensino Médio Inovador

Iniciado em 2009 e lembrado a cada vez que se fala em mudanças no currículo o programa Ensino Médio Inovador é a principal ação do governo federal em parceria com as secretarias estaduais de Educação para melhorar a etapa de ensino. O programa consiste em repasses diretos às escolas que mantiverem os alunos por duas horas a mais e desenvolvam atividades que atendam aos anseios específicos de cada comunidade. Na prática, na falta de um projeto modelo a seguir, as secretarias de Educação que aderiram têm repassado a ONGS o gerenciamento do programa.
O caso mais amplo é do Instituto Unibanco, que atenderá indiretamente a um em cada quatro estudantes do ensino médio em todo o País nos próximos três anos. O projeto Jovem de Futuro, testado em 45 escolas entre 2007 e 2011 foi adotado a partir do ano passado pelas redes estaduais de cinco estados para que, até 2016, atue em todas as 2.520 instituições de ensino médio que atendem 2 milhões de jovens em Ceará, Goiás, Mato Grosso do Sul, Pará e Piauí.
Em cada uma dessas escolas uma verba de R$ 100 por aluno será destinada por ano à instituição. A escola Liceu do Conjunto, em Fortaleza, no Ceará, está entre as que começaram em 2012 e tem investido em projetos multidisciplinares. “No ano passado fizemos um trabalho chamado As Sete Maravilhas do Ceará e os alunos se envolveram muito por se tratar de coisas próximas”, comemora a diretora Maria do Socorro Nogueira de Paula.
Segundo ela, o dinheiro tem sido muito importante e servido para diferentes pendências dentro da instituição que incluem até compra de material e compra de equipamentos. O maior ganho para ela, no entanto, foi a formação. “No início, a gente fica meio nervoso em participar (do Ensino Médio Inovador), mas a formação vem clarear o caminho”, diz. Ela explica que diretores e coordenadores recebem aulas bastante variadas em geral em ambientes fora da escola. “Geralmente levam a gente para um hotel na praia e tem um trabalho do coaching. Nossa, esse investimento no nosso potencial, em nos levar a nos conhecer, você não imagina como funciona”, conta.
A diretora diz que, logo no primeiro ano, os índices de evasão diminuíram e agora a expectativa é de haver algum incremento nas habilidades de leitura e escrita e em matemática. “Seguimos diretrizes do projeto e o segundo objetivo é esse”, diz.
O material do Projeto Jovem de Futuro inclui manuais de implantação, gestão
e acompanhamento para os Estados e, para as escolas, manual de elaboração do plano de melhoria da qualidade, apostilas e vídeos do curso de capacitação de gestores escolares, avaliação diagnóstica de língua portuguesa e matemática e do impacto do projeto. Maria do Socorro elogia o projeto, mas preferiu não opinar sobre a interferência de uma instituição ligada à iniciativa privada em um projeto com dinheiro público. “A gente vai seguindo porque vem da Secretaria de Educação, não vou opinar a esse respeito.”
O Instituto Unibanco atua especificamente na gestão de ensino médio há mais de uma década. O impacto no projeto piloto do Jovem de Futuro foi medido por pesquisas coordenadas pelo subsecretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Ricardo Paes de Barros. O iG o procurou, mas não obteve retorno. Segundo o Instituto Unibanco, comprovou-se a eficiência do programa. “Em Belo Horizonte, por exemplo, as escolas onde o projeto não foi aplicado levariam 3,7 anos para atingir a meta de português e 6,3 anos para atingir a de matemática. O progresso que as escolas de Porto Alegre obtiveram em português só poderia ser alcançado pelas escolas não atendidas em 3,7 anos. Esse mesmo grupo levaria 23 anos para atingir a meta em matemática”.

Ayrton Senna
Com experiência na capacitação de professores e implantação de programas para melhorar o aprendizado de alunos do ensino fundamental desde 1994, o Instituto Ayrton Senna estreou este ano sua atuação no ensino médio, também pelo programa do governo federal em uma escola do Rio de Janeiro. Um currículo inovador, que atende as diretrizes do Ministério da Educação, mas agrega competências não cognitivas (sócio-afetivas, pessoais, de conhecimento) foi elaborado por uma equipe interdisciplinar da ONG para o Colégio Chico Anysio , inaugurado em 2013 na rede estadual fluminense.

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Colégio Chico Anysio, no Rio de Janeiro, usa
currículo desenvolvido pelo Instituto Ayrton Senna

“Dentro do que a legislação brasileira permite, estamos propondo um currículo para fazer com que os alunos vejam sentido na escola. Não é profissionalizante, mas desenvolve competências para atender ao mercado de trabalho e para a conquista da autonomia”, explica Inês Kisil Miskalo, coordenadora da área de Educação Formal do Instituto Ayrton Senna.
Para implantar a proposta pedagógica que promete formar bons cidadãos e bons profissionais, o instituto ofereceu um treinamento para a direção e professores da escola que começou em dezembro, com explicações conceituais sobre o modelo. Em fevereiro, foram apresentadas situações práticas e roteiros de orientação para que os docentes possam planejar o seu trabalho e, ao longo do ano, profissionais da ONG ainda oferecem suporte a eles. Além disso, é realizada uma reunião semanal pedagógica de quatro horas.
Apesar desse acompanhamento, o objetivo do instituto é que a comunidade escolar se aproprie do projeto e o aprimore. “A mesma autonomia que se espera do aluno é trabalhada com o professor. Damos apoio para que ele faça propostas. A expectativa é que surjam ideias da própria escola”, explica.
Sem receber pagamento, o instituto tem o compromisso com o governo estadual de coordenar a gestão da escola durante três anos, durante os quais os alunos e professores serão avaliados sistematicamente, enquanto o modelo será ajustado. “Não usamos o termo ‘piloto’, mas ‘primeira edição’, que ao longo do processo sofre melhorias”, diz Miskalo, que garante que o modelo poderá ser depois replicado a outras escolas e redes. “Não estamos pensando nessa escola especificamente, estamos pensando no ensino médio do Brasil.”

Entrevista: “A gente trouxe a larga escala para o 3º setor", diz Viviane Senna
O Ministério da Educação mantém um Guia de Tecnologias para que redes municipais e estaduais responsáveis pelo ensino básico – fundamental e médio – busquem parceiros. O Jovem do Futuro consta da publicação que está disponível online ao lado de outras 200 “tecnologias pré-qualificadas” pelo órgão para 2011 e 2012.
O ensino médio é a etapa escolar que mantém os piores índices na educação brasileira . Os resultados negativos já se repetem há 12 anos . As mudanças propostas pelo Conselho Nacional de Educação em 2011 eram de flexibilização do currículo, que só foram aprovadas pelo ministro Aloizio Mercadante no final de 2012 .

FONTE:http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2013-04-11/aposta-do-governo-para-ensino-medio-e-gerenciada-por-institutos.html

"A ESCOLA ONDE OS ALUNOS FAZEM AS REGRAS"

Proposta inovadora de colégio estadual no Rio estimula o "aprender a fazer, a conhecer e a conviver". Escola é fruto de parceria com Instituto Ayrton Senna e faculdade Ibmec

Rayssa, Weverton e Isabell não entenderam nada no primeiro dia de aula. Como assim, escolher as normas da escola? “Nós criamos as regras! Fizemos os acordos. Aqui a escola nasceu junto com a gente. Mas não é escola bagunça, onde se pode fazer o que quiser”, contou Rayssa Furtado, 15 anos. “Todos ficamos surpresos, ninguém imaginava que isso fosse possível”, concordou Weverton, 15.
           
O Colégio Chico Anysio, no Andaraí (zona norte do Rio de Janeiro), é “experimental”. É um de nove da rede estadual fluminense no programa Dupla Escola, ou seja, em tempo integral, de 7h às 17h. A instituição também faz parte do programa Ensino Médio Inovador , do governo federal. Mas a principal diferença é que a unidade é um piloto de uma parceria do governo com o Instituto Ayrton Senna e a faculdade Ibmec.

Raphael Gomide
Weverton, Rayssa, Ana Luiza, Isabell e Elias
são alunos do Colégio Chico Anysio, inaugurado
este ano, e elogiam proposta

O projeto pedagógico para o ensino médio foi desenhado pelo Instituto Ayrton Senna e aplicado em parceria com o governo do Rio. O Ibmec dá aulas de introdução à economia, contabilidade, educação financeira, entre outras, que os adolescentes brasileiros normalmente só veem na faculdade. Eles também têm aulas de inglês e espanhol. “Quem está na Chico Anysio não precisa de curso”, disse Elias Fernandes, 15.
O projeto é baseado no aprender a “fazer”, a “conhecer” e a “conviver”. O objetivo é desenvolver nos alunos características que serão usadas por toda a vida, em qualquer atividade que escolham. São estimuladas a autonomia, o pensamento crítico, a curiosidade investigativa, a capacidade de colaboração e de comunicação, a criatividade e a liderança. Os adolescentes ficam dispostos em grupos de “times”, de seis mesas, e debatem os assuntos, fazendo trabalhos de grupo, na maioria. “O engraçado é que todo mundo tem opinião sobre tudo”, disse Isabell Pacheco, 14 anos.
Para estimular a criatividade e a capacidade de resolver problemas, os professores incentivam atividades como improvisos de teatro e jogos em grupo. Um exemplo foi um exercício em que eles simulavam ter de atravessar um rio, contando para isso apenas com um papelão. “O professor é o mediador do conhecimento, e o aluno é o protagonista juvenil”, explica o jovem Fábio Milioni, de apenas 27 anos, a quem os alunos chamam apenas de Fábio. Ele dirige apenas três turmas de 1º ano do ensino médio, com 80 alunos no total.

Raphael Gomide
Diretor da escola, Fábio Milioni, tem 27 anos e
defende a inovação

“Aqui é diferente, as aulas são mais legais”, disse Ana Carolina Mota, 15 anos. Elias Fernandes, 15, sempre foi um dos mais calados das escolas por onde passou. Mas na Chico Anysio ele conta que o método acaba forçando que ele fale mais e supere sua timidez. “Faz com que a gente seja mais sociável”, disse o menino.
No colégio, os meninos têm tempos para dedicar ao “estudo articulado” (quando podem fazer seus trabalhos); à autogestão (escolhem o que querem fazer, de exercícios, a tirar dúvidas com um professor ou até relaxar e ouvir música); e ao “projeto de vida”, quando um orientador os ajuda a escolher o caminho que pode seguir no futuro. “A proposta é inovadora”, afirma o empolgado diretor, que coordena uma equipe de 14 professores.
Inês Kisil Miskalo, coordenadora da área de Educação Formal do Instituto Ayrton Senna, explica que todas essas atividades desenvolvem conhecimento de forma integrada e não há uma divisão estanque de disciplinas. Os alunos são estimulados a fazer projetos, que utilizam conteúdos de várias áreas e muitas vezes exigem o envolvimento de mais de um professor.
            
Os docentes aproveitam a tecnologia disponível por doações de empresas. A maioria das aulas é com datashow, e é enviada em seguida para os alunos, por e-mail. Há uma lousa digital doada por uma multinacional de tecnologia, assim como 40 computadores. Para a representante do Ayrton Senna, não dá para pensar no jovem sem pensar em tecnologia, mas na escola ela deve ser usada como facilitadora do processo todo. “Não tem sentido ter uma sala de computadores, é importante que os alunos possam usá-los quando precisarem, até no pátio”, diz.
A Chico Anysio é distinta até nos esportes escolhidos; esgrima e luta olímpica, pouco comuns no País, quanto mais em uma escola estadual. Isabell sempre foi atlética. Completou os estudos de balé clássico e dança e adora esportes. No primeiro momento, achou esgrima meio esquisito. Mas hoje adora.
Há ainda outras vantagens, aos olhos adolescentes. “A comida é o melhor! Tem tutu, escondidinho de carne, estrogonofe, doce de banana com mel! E os sucos! Além disso, temos o uniforme mais bonitinho, não é aquela camisa do governo feia, horrorosa”, disse Isabell.
O projeto inovador atraiu gente de vários pontos do Rio e está empolgando os alunos, ao menos nas primeiras semanas. As gêmeas Luanne e Rayanne Oliveira da Cunha, 15 anos, levam quase 1 hora 30 minutos todos os dias de Olaria até o Andaraí. “A escola é muuuito boa! O ensino é diferente, em grupo, mais fácil de aprender, e ajuda a me preparar para uma boa faculdade”, disse Luanne.
“Minha mãe diz para eu parar de falar da escola, porque eu falo demais daqui”, contou Ana Luiza Ramos, 14 anos, que, junto com a irmã, Ana Beatriz, trocou a tradicional Fundação Osório, do Sistema Colégio Militar, pelo Chico Anysio.
*Colaborou Tatiana Klix

FONTE:http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2013-04-11/a-escola-onde-os-alunos-fazem-as-regras.html

quarta-feira, 10 de abril de 2013

"AULA PERSONALIZADA VAI MUDAR ENSINO NO PAÍS"

Conheça os conceitos que vão mudar a escola e o aprendizado

Em evento em São Paulo na semana passada, exemplos de modelos de ensino inovadores dos Estados Unidos mostram como será a educação do futuro

“Na sala de aula, cada um é diferente e aprende de forma diferente”. A afirmação feita por Joel Rose, cofundador e diretor executivo da New Classrooms Innovation Partners, em evento em São Paulo na semana passada sobre novos modelos para o ensino público, é senso comum entre professores e o desafio principal de quem pensa e trabalha pela educação do futuro. No Transformar 2013, que reuniu mais de 800 pessoas, entre educadores, gestores e empreendedores, exemplos concretos norte-americanos de escolas inovadoras – e bem sucedidas – mostram que já é possível personalizar a aprendizagem e como não há apenas um modelo para fazer isso.

Conheça conceitos que vão transformar as escolas (e onde foram aplicados):

Personalização – Entender as necessidades de cada estudante é o diferencial da School of One, uma plataforma criada para escolas de Nova York por Rose e Christopher Rush e que tem a tecnologia como principal aliada para a tarefa. Baseado em uma avaliação feita no início do ano, o sistema elabora um mapa de habilidades e plano de estudos individual. Mas para isso, utiliza experiências de outros alunos. Um enorme repositório de lições está disponível e o banco de dados prevê que tipo de atividade é mais adequado ao perfil de cada um. “A melhor maneira de aprender pode ser com aulas online, em grupos ou estudando sozinho. O nosso algorítimo usa as experiências já aplicadas para identificar isso”, explicou Rose. Uma receita parecida é usada no grupo de escolas Summit, na Califórnia , na qual os estudantes também passam por uma avaliação no início do ensino médio, para elaborar um plano de estudos de acordo com seus objetivos de carreira. A tecnologia, novamente, é usada para avaliar em todos os momentos o que cada aluno já aprendeu e se já está pronto para aprender mais. “Cada um segue no seu ritmo”, contou a diretora executiva da rede, Dianne Tavenner.

Entrevista com Tavenner: “É possível educar todas as crianças em alto nível”

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Salas de escolas orientadas pela New Classrooms proporcionam
que cada um aprenda do seu jeito

Plataforma adaptativa
 
– Para proporcionar o ensino personalizado, existem plataformas tecnológicas de ensino online que ajudam a elaborar e entregar os conteúdos necessários para os diferentes tipos de alunos. José Ferreira, fundador da Knewton, ferramenta que fornece lições de matemática, diz que o volume gigante de informações – maior que o do Facebook – que sua base de dados oferece revoluciona o ensino. A plataforma mostra ao professor com agilidade o que os estudantes aprendem, quando erram, no que tem dificuldades e como aprendem e ajuda a elaborar aulas.

Inovação: Recursos Educacionais Abertos podem globalizar a educação
           
Ensino híbrido – A sala de aula já não tem mais um professor falando em frente ao quadro negro e alunos sentados em carteiras organizadas em fileiras iguais nas oito escolas públicas gerenciadas pela ONG New Classrooms, de Joel Rose. Para que cada um possa aprender do seu jeito, também é realizada uma mudança física e os alunos sentam nas mais variadas formas: sozinhos, em grupos pequenos ou grandes, em frente a computadores ou usando material impresso. No espaço reorganizado, fazem atividades distintas, algumas online e outras, não. Para que esse modelo híbrido funcione, o papel do professor também muda para o de mentor. Segundo Tavenner, das escolas Summit, os docentes acompanham as atividades realizadas em um espaço grande, sem paredes, e orientam os alunos de várias formas: resolvendo dúvidas, questionando, provocando debates, orientando atividades e projetos.

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Na escola Quest to Learn, em Nova York, alunos
aprendem jogando
            
Engajamento – O interesse das crianças é o ponto de partida para o aprendizado na escola de ensino fundamental Quest to Learn, em Nova York. Apoiada pelo Instituto of Play, um estúdio de design sem fins lucrativos liderado por Brian Waniewski, a escola constrói o engajamento dos alunos através de jogos. Segundo Waniwski, a lógica dos videogames é apropriada para o aprendizado porque proporciona um ambiente com regras, nas quais há etapas a serem vencidas, mas que tolera erros. E mais: oferece feedback constante. Para usar esses elementos, o Instituto of Play tem profissionais especializados em criar jogos educativos que dão suporte aos professores e incentiva também os alunos a inventarem os seus próprios. Outra forma de promover o engajamento é conectar o ensino com a realidade. Essa é a aposta de Melissa Agudelo, reitora de admissões do grupo de 11 escolas High Tech High, de São Diego. “Os alunos precisam ver sentido no que aprendem”, diz. Nas escolas, há muitas atividades práticas, os alunos saem da sala de aula e têm experiências na comunidade e precisam resolver problemas reais.

Educação por projetos – O fim da grade de disciplinas separadas é uma das experiências das escolas High Tech High para tornar o aprendizado mais relevante aos alunos. Segundo Agudelo, os estudantes não são divididos por série, nível de habilidade e aprendem vários conteúdos integrados. Para isso, os professores estimulam alunos a desenvolverem projetos, solucionar problemas, nos quais precisam usar vários tipos de conhecimento. Nesse caso, professores de áreas diferentes se envolvem com os mesmos projetos.

FONTE:http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2013-04-10/conheca-os-conceitos-que-vao-mudar-a-escola-e-o-aprendizado.html

terça-feira, 9 de abril de 2013

Diretora "MÃO DE FERRO" faz aumentar nota de escola caindo aos pedaços


“Eles têm medo de mim porque sou chata”, diz diretora com Idesp 8,27

Em comunidade violenta de Diadema, escola tem excelentes índices nas avaliações oficiais, mesmo sem computador, carência de professores e seringas na quadra esportiva

O muro com desenhos infantis já bastante desbotados é o que há de mais colorido na vizinhança da escola estadual Claudio Abramo, em Diadema, onde quase todas as casas variam entre cinza e marrom conforme o material usado nas construções semiacabadas. Na entrada, chama atenção as três grades que é preciso atravessar. O ambiente é tão contrastante com as notas que a escola vem recebendo no Índice da Educação Básica do Estado de São Paulo (Idesp), que até a diretoria regional desconfiou. “Na última prova um supervisor entrou aqui e ficou me vigiando o tempo todo. Quase morri de ansiedade porque eu sou fumante e não queria fumar na frente dele”, conta a diretora Terezinha Imbo Spinoza Parra.
Google Maps
Simplicidade da escola estadual Claudio Abramo chegou a
despertar desconfiança sobre resultados no Idesp
 
Mesmo assim a unidade fez ainda melhor do que a já inacreditável nota 7,49 de 2011 e chegou a 8,27 em 2012. A escola tem outras provas de como os alunos vão bem em língua portuguesa e matemática. Na avaliação nacional, alcançou 6,6 no Índice de Educação Básica do Brasil (Ideb) de 2011, enquanto a média no País é 5 e, a visitantes como a reportagem do iG , mostra algo mais inquestionável: o portfólio dos alunos.
No final do 2º ano, exercícios para concluir histórias com poucas linhas resultam em redações que não se limitam ao espaço designado pela professora e preenchem também o verso. No 5º ano, último da escola e série que responde à prova que resulta no Idesp, os textos são mais elaborados e é fácil identificar habilidades gramaticais e de pontuação.
Cinthia Rodrigues/iG
Redações no portfólio mostram que não é só nas
avaliações oficiais que os alunos demonstram habilidades
“Melhor que as redações do Enem, não?”, comenta a diretora, em uma de muitas opiniões que ajudam a entendê-la. Exemplos: “Esses erros do Enem são uma vergonha”, “Educação quem tem que dar é pai e mãe. Vai chegar um dia que a escola vai ter que dar até o espaço para eles fazerem o filho”, “Tem gente que vem para a escola para ocupar a carteira”, “Acho que o (goleiro) Bruno foi uma vítima” e, em sua página na rede social Facebook, o último post é sobre a maioridade penal “Todo menor assassino, estuprador, traficante também devia ser julgado como adulto. Eu apoio”.
Mesmo assim, ela gosta de repetir que prefere ser respeitada por amor do que por medo e realmente recebe sorrisos dos funcionários e até alunos por onde passa, mas a postura dura é marcante. “Eles têm medo de mim porque sou chata”, confessa. “Quando cheguei dei de cara com ratazana, tinha carteira quebrada entulhada até o teto, tive que ter
pulso firme.”
Cinthia Rodrigues/iG
Teresinha confere comportamento dos alunos
Isso foi há 11 anos. Desde então, ela abriu “alguns” processos administrativos contra funcionários e professores que não cumprissem suas ordens, dispositivo a que recorre até hoje. “Muitos foram embora, graças a Deus. De uns quatro anos para cá tenho uma equipe fixa, ficou quem quer trabalhar”, diz.
Com os alunos não é muito diferente. Na sexta-feira passada, com o aparelho de som finalmente consertado após meses, os alunos fizeram fila para ouvir o hino nacional. Ela havia avisado que queria silêncio e os professores tentaram impor enquanto os organizavam, mas ela não esperou. “Shiiiiiiiiiiu!”, gritou um andar acima batendo palmas e em seguida colocando o indicador bem alinhado ao nariz. Funcionou na hora. “Se eu chamo alguém para minha sala converso horas. Faço lavagem cerebral. Eles me obedecem porque enjoam da minha cara”, afirma.
Formada bacharel em Direito, Terezinha nunca exerceu advocacia, em vez disso dedicou 40 de seus 68 anos de idade a educação. Agora procura o próprio nome no Diário Oficial diariamente à espera da aposentadoria. “Quando isso acontecer não volto nunca mais. Quero guardar a imagem da escola como eu deixei. Tenho medo do que possa acontecer se não chegar alguém com pulso firme.”
Comunidade violenta
A Claudio Abramo não tem mais recursos do que a maioria das escolas estaduais, talvez até menos. Os quatro únicos computadores ficam na secretaria. O da sala dos professores está quebrado há mais de um ano e os da sala de informática foram roubados há quatro anos. Ladrões renderam um funcionário com uma arma na cabeça antes do dia raiar e obrigaram a única professora que já havia chegado a ajuda-los a carregar.
Apesar da equipe alinhada com a filosofia da diretora, faltam professores. As salas que teriam 30 alunos cada acabam superlotadas ao receber outros estudantes das turmas que estão sem docentes. “Não há profissionais disponíveis, estou pedindo desde o começo do ano e só agora me mandaram alguns”, reclama Teresinha. Uma das interessadas
pode não ficar. “Ainda vou ter uma conversa com ela, mas o que me disseram é que é uma aposentada procurando trabalho light. O que ela quer dizer com isso? Aqui só tem trabalho pesado.”
O entorno violento também muda a rotina dentro da escola. “Eles usam a quadra. A gente não se mete. De vez em quando peço para alguém ir lá e ver se tem seringa jogada no chão antes de mandar as crianças”, conta sem mudar o semblante.

FONTE:http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2013-04-08/eles-tem-medo-de-mim-porque-sou-chata-diz-diretora-com-idesp-827.html

quinta-feira, 4 de abril de 2013

“É possível educar todas as crianças de escola pública em alto nível”


Diretora de rede nos EUA participa de encontro sobre boas experiências no ensino público em São Paulo e diz: a tecnologia livra os professores de tarefas para dar atenção ao aluno

Uma escola com salas sem paredes como as de empresas de tecnologia e em que os professores não dão aulas consegue preparar todos os seus alunos para entrar e ficar quatro anos na faculdade. Ou melhor, um grupo de quatro escolas chamadas de Summit, na California, Estados Unidos, que cumpre a sua missão a risca: desde 2003, quando a primeira unidade foi criada, 96% de todos os seus estudantes foram selecionados para cursar pelo menos uma graduação.            
A diretora executiva da rede de instituições e cofundadodora da primeira Summit, em Redwood, está em São Paulo para participar nesta quinta-feira do Transformar 2013 , um encontro sobre experiências concretas de transformação e sucesso em escolas públicas pelo mundo. Ontem, Tavenner conversou com o iG no hotel Maksud Plaza, onde o evento será realizado das 8h30 às 18h30, e explicou como consegue atingir esse objetivo. Entre as receitas, está o desenvolvimento de um plano de aprendizado personalizado para cada estudante, que é acompanhado diariamente por um tutor em todo o período do ensino médio, e um currículo totalmente conectado com a realidade.

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Dianne Tavenner, diretora executiva e
cofundadodora das escolas Summit, nos EUA


A melhor notícia é que o modelo é mais fácil de replicar em grande escala do que o tradicional, segundo a educadora. Com a ajuda da tecnologia, os professores são liberados de várias tarefas e podem se dedicar mais aos alunos. Na Califórnia, ela já está fazendo isso na rede de escolas charter (que funcionam com verba do governo e de doações) Summit. Este ano, duas novas unidades serão abertas, e o plano é fazer o mesmo nos próximos 10 anos, até que todos os alunos do Vale do Silício recebam educação de alto nível. Atualmente, 47% terminam o ensino médio sem a base necessária para o ensino superior.

Leia abaixo a entrevista de Diane Tavenner ao iG:
iG: O que faz uma escola Summit ser especial?
Dianne Tavenner: O mais importante é que nós preparamos todos os nossos alunos para a faculdade e carreira. Isso não é algo que todas as escolas fazem nos Estados Unidos e, possivelmente, aqui também não. Nós acreditamos nisso e levamos a sério esse objetivo. Para isso acontecer, desenvolvemos uma série de ações, mas essa é a nossa missão. E nós já provamos que é é possível educar todas as crianças de escola pública em alto nível. Isso é importante, porque muitas pessoas antes pensavam que fosse impossível. E nós, junto com outros educadores nos Estados Unidos, provamos o contrário.
iG: E como vocês fazem isso?
Tavenner: Nós começamos criando um plano de estudo personalizado para cada estudante, de modo que ele define logo que chega à escola um objetivo para sua carreira, que universidade quer fazer, que vida quer ter. A partir disso, nós desenvolvemos um plano personalizado para que ele alcance o objetivo. Depois trabalhamos para que a escola forneça todo o suporte necessário para manter o estudante nesse caminho. Esse é o ponto de partida. O segundo ponto é que todos os estudantes têm um mentor, que permanece o mesmo durante todo o período escolar. Esse mentor ajuda a pensar nos objetivos e reavaliá-los quando for preciso, observa todos os dias se o plano está sendo cumprido e de que forma, conversa com a família, discute dúvidas e ajuda em crises. Em terceiro, vem o jeito que ensinamos, o nosso currículo é muito autêntico e realista. Nós trazemos tecnologia para a escola, as crianças trabalham colaborativamente em projetos nos quais têm que resolver problemas reais, não é nada chato. Dessa forma, as crianças ficam motivadas porque se dão conta de que estão aprendendo coisas que vão ser úteis para ela. Por último, durante dois meses do ano letivo, em janeiro e junho, os estudantes ficam fora da escola e trabalham na comunidade, fazem estágios, têm experiências relacionadas a seus interesses ou paixões, que podem ser fotografia ou jornalismo, por exemplo. Como avaliação desse período, eles têm que desenvolver algo que possam compartilhar ou apresentar. Então, se é algo relacionado à fotografia, fazem uma exposição. Se é teatro, apresentam uma peça. Se fazem um estágio, devem fazer uma apresentação sobre o trabalho realizado. Tudo sempre conectado com a realidade.
iG: Que práticas inovadoras são aplicadas nas escolas Summit?
Tavenner: Nós usamos muita tecnologia. Por exemplo, a tecnologia serve para saber exatamente o que cada aluno sabe e não sabe em todos os momentos. Cada estudante tem o seu mapa pessoal de conhecimento e objetivos. Em vez de promover aulas em que não importa quem sabe, mas que todos ouvem a mesma coisa e tem que participar das mesmas atividades, cada aluno vai aprender o que precisa aprender. Fazemos isso com uma ferramenta que chamamos de playlist – como a dos tocadores de música digital. Nessa lista está tudo o que o aluno precisa aprender e ele vai escolhendo como gostaria de fazer. Quando ele sente que já está pronto para seguir em frente, faz uma avaliação. Se ele realmente já aprendeu, ótimo, vai adiante.
iG: Eles podem escolher o jeito, mas não o que precisam aprender, certo?
Tavenner: Eles podem realizar algumas escolhas quando desenvolvem o plano de aprendizado inicial, mas tem coisas que todos precisam saber para chegar a uma universidade. Para chegar a esses conhecimentos, eles escolhem como querem aprender e não precisam passar pelo que já sabem.
iG: A senhora acredita que tecnologia é essencial nas escolas?
Tavenner: A tecnologia proporciona que se desenvolva uma educação melhor, se for usada do jeito certo. Mas mais importante que isso é que faz parte do mundo e da vida. É um erro fazer com que os estudantes deixem a tecnologia do lado de fora da escola. Isso não vai prepará-lo para o mundo.
iG: Esse modelo de escola pode ser replicado para grandes redes de ensino, como a do ensino médio brasileiro?
Tavenner: Esse modelo é mais fácil de replicar em grande escala que o tradicional. Tenho convicção sobre isso. No modelo antigo, cada professor tem que fazer o seu próprio planejamento anual, preparar cada aula, corrigir todas as provas. Nesse modelo, construímos uma plataforma que tem tudo isso pronto, que é acessada pelos estudantes diretamente. Agora, os professores apenas ajudam e dão suporte aos alunos. Eles não precisam ter todo o trabalho de preparação, ficam mais focados no que fazem de fato.
iG: Ainda existem aulas, como as que eu tive na escola?
Tavenner: Quase nunca. As aulas são em espaços grandes e abertos, em que os alunos se dividem em grupos para desenvolver projetos. Mas não tem mais uma grade de horário que começa com matemática, passa para ciência e depois história. Não é mais assim.
iG: E como eles aprendem matemática, por exemplo?
Tavenner: De duas maneiras. Uma é online. Eles aprendem muito online, com suporte de um tutor. A outra forma é fazendo projetos, nos quais aplicam a matemática que estão aprendendo naquele momento. Por exemplo, um projeto poderia ser descobrir como se projeta um prédio em um espaço determinado, usando os conhecimentos de matemática. Claro que o professor participa desse processo, mas ele não vai ficar na frente de uma turma falando e explicando, enquanto os alunos tomam notas.
iG: São necessários mais professores para esse modelo funcionar do que em escolas tradicionais?
Tavenner: Provavelmente o mesmo número.
iG: Como são escolhidos e treinados os professores?
Tavenner: Nós selecionamos professores que são apaixonados pelo que fazemos e que acreditam na nossa missão. Mas também investimos muito para desenvolvê-los depois. Eles recebem 40 dias de formação todos os anos. Quando os estudantes estão fora da escola, nos projetos na comunidade, os professores ficam aprendendo e crescendo. É bom para todos.
iG: Vocês têm dificuldades para encontrar bons professores, preparados para aplicar um modelo inovador de educação?
Tavenner: Temos vários candidatos sempre. Eu não acredito em escassez de bons professores. Algumas pessoas nos EUA acreditam nisso, mas eu não concordo. Todo o professor que eu conheço quer fazer o bem para seus alunos. Mas quando o professor entra em uma escola ou sistema de ensino que não funciona e que faz com não seja bem sucedido, mesmo trabalhando muito, começa a ficar desmotivado. Se ele tiver a oportunidade de trabalhar em uma escola que o valorize como profissional e na qual consiga fazer um bom trabalho, sempre gosta.
iG: Os salários das escolas Summit são mais altos que a média?
Tavenner: São salários competitivos.
iG: E que equipamentos os alunos têm disponíveis?
Tavenner: Nós damos um laptop para cada estudante e conexão de internet. Naturalmente, todos eles levam seus celulares para a escola. E os professores também têm laptop.           
iG: E as salas de aula, como são?
Tavenner: Grandes, com poucas paredes, têm apenas algumas divisórias. Se parecem com as salas de trabalho de empresas de tecnologia.
iG: O custo de uma escola Summit é superior ao de uma escola pública tradicional americana?
Tavenner: É o mesmo. Às vezes é um pouco menos. As escolas charter (geridas pelo setor público e privado, como as Summit ) recebem um pouco menos de dinheiro do governo que as regulares. Ou seja, a manutenção não é mais cara que a das tradicionais. Usamos o dinheiro de forma diferente, mas não é mais.
iG: Por que as doações são necessárias?
Tavenner: Nós precisamos das doações para começar. Não temos dinheiro para construir o prédio, instalar a tecnologia. Não temos nada. As escolas charter só começam a receber dinheiro do governo quando os alunos começam a aprender. Precisamos do capital inicial.
iG: A missão das escolas Summit é preparar os alunos para a universidade. Existem movimentos nos EUA que defendem que fazer um curso superior não é o único jeito de obter sucesso . O que você pensa sobre esse posicionamento?
Tavenner: Existe, mesmo, um pequeno debate sobre essa questão. Mas a maioria das pessoas que defendem isso são pessoas que foram para a universidade e tiveram sucesso. Você não ouve pessoas pobres dizendo isso, você não ouve mães de jovens que querem ir para a universidade dizendo isso. Então eu não acho que essa seja uma boa discussão. De qualquer forma, nenhum estudante vai ser prejudicado por ser preparado para a universidade. Se depois ele escolher não ir, já terá aprendido muitos valores e conhecimentos que o preparam para uma carreira. Eu acho que o nosso trabalho no sistema público de ensino deve ser o de preparar o aluno para a universidade para que ele tenha condição de escolher. Se ele preferir não ir para a faculdade, tudo bem.

FONTE:http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2013-04-04/e-possivel-educar-todas-as-criancas-de-escola-publica-em-alto-nivel.html

Estrangeiros ricos optam por escolas públicas em Nova York


Ao contrário dos americanos, moradores de outros países com renda alta valorizam diversidade étnica e econômica das escolas gratuitas

Miriam e Christian Rengier, um casal alemão que se mudou para Nova York, visitaram algumas escolas elementares particulares em Manhattan na primavera passada em busca de uma para o filho. Eles imediatamente notaram a ausência de diversidade étnica e motoristas que deixam e pegam as crianças na porta.
Para os Rengiers, tomar uma decisão foi fácil: o filho iria para a escola pública.
"Não era uma questão de podermos ou não pagar pelas instituições particulares", disse Miriam Rengier. "Mas sim uma questão de saber se ele teria uma vida real ou não."
Em Nova York, os ricos normalmente colocam seus filhos em escolas particulares. Mas os afluentes nascidos no exterior optam pelo contrário.
       
Kirsten Luce
O francês Gilles Bransbourg leva seu filho a escola pública
em Nova Tork


Em uma divergência notável, a grande maioria dos ricos estrangeiros está colocando seus filhos em escolas públicas, de acordo com uma análise de dados do censo. Em Nova York, há cerca de 15.500 famílias com crianças em idade escolar que tem uma renda total de pelo menos US$ 150.000 anuais e que vieram do exterior. Destas, cerca de 10.500, ou 68%, usam escolas públicas.
Isso é quase o dobro do índice entre americanos da mesma faixa de renda. Os dados do censo incluem tanto os imigrantes quanto aqueles que vivem temporariamente na cidade por causa de seu trabalho.
A disparidade é ainda mais acentuada para pais estrangeiros com renda familiar de US$ 200 mil ou mais. Cerca de 61% colocam seus filhos em escolas públicas, em comparação com 28% dos americanos na mesma faixa de renda.       
Como resultado, algumas escolas públicas elementares em partes mais ricas de Manhattan e do Brooklyn estão experimentando um aumento inesperado de alunos estrangeiros.
Nos Estados Unidos em geral praticamente não há qualquer diferença entre os dois grupos. No país, 73% dos americanos e 76% dos nascidos no estrangeiro optam por colocar seus filhos em escolas públicas, de acordo com os dados, que foram analisados por Andrew A. Beveridge e Susan Weber-Stöger, demógrafos da Faculdade Queens.
Em entrevistas, os ricos nascidos no exterior afirmaram ter considerado vários critérios na escolha de escolas, incluindo a qualidade, o custo e a localização. Mas muitos disseram que também foram influenciados pela maior diversidade étnica e econômica das escolas públicas.
"Quando eles vão para a escola pública, eles estão em um novo mundo, um mundo inteiro de pessoas diferentes e valores diferentes, que é o que como o mundo real", disse Lyn Bollen, que cresceu em Birmingham, Inglaterra, e estudou – assim como ensinou - em escolas públicas. "Protegê-los disso seria um desserviço."
 

terça-feira, 2 de abril de 2013

MEC desenvolve portal com aulas e avaliações online

Projeto que deve ser lançado no início do ano que vem está sendo realizado em conjunto com secretarias, organizações sem fins lucrativos e empresas

O Ministério da Educação (MEC) está elaborando, em conjunto com secretarias, organizações sem fins lucrativos e empresas, uma plataforma nacional digital para a educação básica. A ideia é que ela ofereça aulas digitais estruturadas, com objetos de aprendizagem variados (vídeos, textos e jogos), e um conteúdo esquematizado – mas de modo com que cada rede ou escola organize seu currículo. A plataforma começou a ser pensada em fevereiro e deve ser lançada no início do ano que vem.

Sucesso em videoaulas: Salman Kahn vê País como parceiro na revolução da educação
           
A ideia é de que as aulas digitais tenham níveis de complexidade, para que alunos em diferentes fase de evolução possam escolher o que fazer – objetivo é que haja opções do tipo de aula. O portal deve contar ainda com um sistema de avaliação que, além de monitorar o que o aluno aprendeu, já o direcione para um exercício ou conteúdo específico.
O plano inicial era começar a construção do projeto com uma plataforma voltada para os anos finais do ensino fundamental (do 6.º ao 9.º ano). Mas, por causa da preocupação do governo federal com o ensino médio, essa etapa não será deixada de lado já no início. Se for para aplicar recursos federais na produção de conteúdos digitais, esse investimento será feito para suprir o ensino médio.
Desde o ano passado, a pasta está mobilizada com secretarias estaduais para fortalecer uma nova identidade para essa etapa. E, nesse plano, a tecnologia teria papel fundamental.
O conteúdo dessa nova plataforma estaria organizado de acordo com as expectativas de aprendizagem baseadas nos descritores da Prova Brasil. Além de prever a produção de conteúdo especialmente para formar o portal, o projeto também deve reunir iniciativas bem-sucedidas realizadas pelo País.

Outras iniciativas: Sem barreiras para o conhecimento, vídeoaulas se multiplicam
           
A ideia de um modelo nacional surgiu de uma dessas iniciativas, a da cidade do Rio de Janeiro. As escolas cariocas contam desde 2011 com a Educopédia, plataforma de conteúdo digital. Como todo o material é aberto, cerca de 200 municípios utilizam formal ou informalmente. "Em uma visita de integrantes do MEC ao Rio, começamos a pensar o que seria uma plataforma nacional, que pudesse ser customizada para cada Estado", explica a secretária municipal de Educação do Rio, Claudia Costin.
Segundo ela, cada rede poderá colocar seu próprio sequenciamento de aulas e currículo e também customizar conteúdos. "Apesar de ser mobilizada pelo MEC, com participação nossa e de outras secretarias, ainda haveria a possibilidade de as redes recriarem para diferentes contextos, sem que nada seja idêntico."
A secretária lembra que durante muito tempo houve um debate sobre se colocar computadores na escola era desperdício, "e, de fato, só essa presença não mexeu com o processo de aprendizagem". "Mas hoje o computador entrou como ferramenta de apoio ao professor e de aprendizagem do aluno. A utilização adequada de portais de aprendizagem permite uma educação personalizada, sem perder a escala", diz ela, citando o que tem sido feito com o novo modelo de escola criado na cidade, o Gente.

Colaboração                

 Além de aulas prontas (divididas em três níveis de complexidade), a plataforma deve ser equipada com ferramentas de customização e criação de novas atividades, áreas de compartilhamento e orientações para os professores.

Tendência: Recursos Educacionais Abertos podem globalizar a educação
           
Um grupo de instituições e empresas já está participando das conversas. "Há uma série de inovações que a iniciativa privada pode trazer, além de reunir esforços para um projeto único", diz Anna Penido, diretora do Instituto Inspirare e portal Porvir. Anna tem colaborado na sistematização de uma proposta e também no mapeamento de ações realizadas pelo País e que podem ser aproveitadas.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

FONTE:http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2013-04-02/mec-desenvolve-portal-com-aulas-e-avaliacoes-online.html

Pais ajudam crianças autistas a darem e receberem afeto

No Dia Mundial do Autismo, familiares e especialistas fazem campanha contra o mito de que portadores não reconhecem o carinho

Aos dois anos de idade, o caçula da família Fonseca, João Pedro, foi diagnosticado como portador do transtorno autista. Desde então, o menino fez - e faz - cair por terra os estereótipos disseminados sobre o problema no desenvolvimento infantil que afeta um milhão de pessoas do Brasil, conforme contabilizou o Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).
"Quem olha para o João Pedro, hoje com nove anos, cantando, feliz, brincando e sendo este menino que é carinho puro, duvida que ele seja autista. Deve ser porque eu nunca duvidei do turbilhão de sentimentos e capacidades que sempre moraram dentro do meu filho”, avalia Denise Fonseca, 40, que é professora e faz parte de um grupo de mães de autistas do Rio de Janeiro, o Mundo Azul.
“Graças à terapia precoce e a nossa não desistência, todas essas sensações foram, pouco a pouco, traduzidas em beijos e abraços diários”, completa.

Causas e consequências
           
Os especialistas ainda não conseguem afirmar com clareza quais são as causas do autismo - condição que não é detectada por exames no pré-natal e, na maior parte das vezes, só se manifesta a partir dos dois anos de idade. Mas os estudiosos sabem que os principais sintomas do espectro autista - dificuldade na fala, na comunicação, de fazer contato visual e estabelecer relação com o entorno - contribuíram para disseminar duas informações equivocadas e perigosas sobre eles.                          
“Um dos maiores perigos de acreditar que o autista é incapaz de afeto e que não vive no mesmo mundo que o nosso é que, assim, ele acaba subestimado e diminui as chances de desenvolvimento da criança”, alerta a psicomotricista e pedagoga Eliana Boralli Mota, fundadora da AUMA (Associação dos Amigos da Criança Autista).
“Eu trabalho há 24 anos na área e conheci autistas de todos os lugares: Brasil, América Latina, Europa e Japão. Em todos os casos, sempre encontrei neles o idioma universal do afeto. Mas é preciso um trabalho para ajudá-los a organizar estas sensações e então manifestá-las", orienta Eliana.

Preconceito no consultório
           
Os potenciais afetivos e de capacidades dos autistas são minados pelo preconceito e pela falta de informação presentes, inclusive, em parte dos psicólogos, psiquiatras e neurologistas. Eliana, por exemplo, antes de virar especialista na área, levou a filha Nathália, na época com três anos, à clínica de um dos nomes mais famosos do tratamento de autistas dos anos 1990.
“O médico disse que minha filha nunca seria capaz de falar. Sentenciou que, em 15 anos, ela estaria internada em uma clínica, com camisa de força”, lembra a mãe que ficou incomodada com a rapidez de um prognóstico tão severo, dado após um único contato com a menina.
“Eu não me conformei com aquelas informações e fui atrás de outras possibilidades. Hoje, a Nathália está com 27 anos, é alfabetizada, uma pessoa cheia de vontades e bem temperamental. Tenho um orgulho danado quando a vejo expressar sensações das mais elaboradas. Ela sempre diz ter saudade de mim", diz a mãe que atua para levar estas possibilidades de convívio afetivo dos autistas a outros pais.

Arquivo pessoal
João Pedro foi diagnosticado como portador do
transtorno autista aos dois anos de idade

Sensações aguçadas
           
As descrições científicas sobre os autistas confirmam que o caminho entre "sentir" e "manifestar" é mais complicado para eles do que para os não portadores do transtorno. De acordo com as descrições dos catálogos médicos “há modificação na captação e organização sensorial da audição, visão, paladar, olfato e tato”. Estas alterações comprometem a capacidade de imitação, percepções, coordenação motora e integração por vias sensoriais.
“A maior dificuldade do autista é se colocar no lugar do outro", define a fonoaudióloga Aline Kabarite, diretora do Instituto Priorit - entidade que oferece atendimento multifatorial (psicologia, dança, esporte, teatro e terapia) a cerca de 100 crianças e adolescentes autistas.
Aline explica que as sensações para o autista são, em alguns casos, muito mais aguçadas. “Às vezes, um som que passa despercebido para outras pessoas provoca um incômodo terrível nos autistas. Um abraço não desperta, imediatamente, prazer, e sim, desconforto”, informa.
Por isso, explica ela, o trabalho com os autistas tem como objetivo fazer com que eles fiquem adaptados a uma forma de linguagem que torne mais fácil expressar as sensações e receber essas informações.
“É um refinamento social e é importante que os pais reconheçam as formas de afeto que inicialmente podem estar ocultas”, diz ao citar exemplos. “Enquanto a criança autista não reconhece como processar o carinho da mesma maneira que nós estamos acostumados, para ela fazer um desenho, preparar um café da manhã ou colocar a mão no ombro podem ser maneiras mais elaboradas de expor suas sensações afetivas.”
            
Receio inicial
           
Com o trabalho multifatorial, afirmam os especialistas, paulatinamente, essas expressões de sensações ficam menos codificadas e já não exigem a “tecla SAP” por parte dos pais, irmãos ou professores. É fato que alguns autistas apresentam sintomas mais leves, outros mais moderados e existem os casos severo. Essas modulações interferem na interação com o entorno.
Em todos os casos, solicita Roberta Marcell, especializada em neuropsicologia e saúde mental e desenvolvimento infanto-Juvenil pela Santa Casa do Rio de Janeiro, o importante é não abrir mão da comunicação pelo caminho do afeto com os filhos.

Divulgação
Eliana e a filha Nathália, com 27 anos: 'Disseram
que ela nunca falaria. Nathália hoje é alfabetizada
e expressa sensações elaboradas, como a saudade'


“Mesmo que os pais tenham dificuldade em reconhecer o carinho dos filhos, eles não devem desistir de demonstrar o amor que sentem pela criança. Essa construção de relação não deve ser abandonada nunca.”
Alessandra Rodrigues Pereira, 35, é exemplo. Quando recebeu o diagnóstico de autismo do filho Eduardo, então com um ano e sete meses de vida, foi invadida por um temor. “Naquele momento, eu perdi meu filho. Não apenas o filho idealizado, eu perdi aquele bebê saudável, que dava lindas gargalhadas, mandava beijos. Naquele momento, eu temia o futuro.”
A suspeita de que Eduardo se desenvolvia de maneira diferente das outras crianças veio com uma comparação próxima. O garoto é irmão gêmeo de Luísa e ela crescia em um compasso diferente do que regia o irmão. Alessandra, funcionária pública do Ceará, procurou ajuda terapêutica para o filho o mais rápido possível. A decisão surtiu efeito, pois, com ela, a mãe também aprendeu que aquele estereótipo “pessoa isolada, estagnada, que passava o tempo inteiro balançando o corpo e não se comunicava com ninguém não correspondia à realidade.”
“Hoje eu tenho uma criança que corre, sorri, tenta mostrar o que quer – embora não fale”, diz a mãe sobre o menino que faz acompanhamento com psicóloga, neuropediatra, fonoaudióloga e terapeuta ocupacional e tem aquela bela ajuda de Luísa que trata o irmão sem ressalvas ou limitações.
Eduardo sempre surpreende Alessandra “com a mãozinha dele no meu cabelo enquanto estou dirigindo”. Nathália sempre quando observa a mãe cansada, pergunta “o que aconteceu com você?”, questionamento que Eliana quase não ouve de outras pessoas. João Pedro, fã de Skank e NX Zero – grupos que aprendeu a gostar por influência do irmão Jorge - parece ter o radar ligado sobre o que acontece em sua volta. Só um exemplo, cita a mãe Denise: “Se escuta, lá longe, alguém espirrando, já grita ‘saúde’”.


FONTE:http://delas.ig.com.br/filhos/2013-04-02/pais-ajudam-criancas-autistas-a-darem-e-receberem-afeto.html

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Entenda por que você mente todo dia – e isso é bom

A mentira é uma das peças fundamentais da vida em sociedade. Só se torna nociva quando vira um hábito ou é usada para prejudicar o outro


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Estudos estimam que mentimos, em média, três
vezes por minuto

Se seu filho não mente, leve-o ao médico. É o que recomendam os estudiosos do comportamento. Mentir é um sinal de evolução e, sem ela, o mundo seria um completo caos. “A mentira é o pilar das relações sociais”, explica o filósofo e psicólogo evolutivo David Livingstone Smith no livro “Por que as Pessoas Mentem?”. "Não teria sido inadequado chamá-lo de Homo fallax ('Homem enganador') em vez de Homo sapiens ('Homem sábio')", ele escreve na obra.

Nascemos, crescemos e morremos mentirosos. A mentira é tão inerente à natureza humana quanto emoções como alegria, tristeza e raiva. “Há estudos científicos que comprovam que bebês dão sorrisos falsos para estranhos”, diz o especialista Paulo Sérgio Camargo. “Eu minto mais do que o necessário e bem menos do que eu preciso”, confessa.

Desde cedo, a criança percebe as vantagens de mentir e irá fazê-lo pelo resto da vida. “Na escola, quando descobre que ao assumir seus erros é punida, ela começa a se esquivar de suas responsabilidades”, explica Paulo. As próprias mães são dúbias com relação à mentira desde o início da criação: elas dizem para o filho não mentir, mas quando a criança atende uma ligação indesejada, não hesitam em dizer: “Se for fulano, diga que não estou”.

Por dia, escutamos cerca de 210 mentiras. Quem afirma é Robert Feldman, professor de psicologia da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, e autor do livro "Quem é o Mentiroso da Sua Vida?", que realizou um estudo demonstrando que uma pessoa conta em média três mentiras a cada dez minutos.

Mentiras sociais

Recorrer à inverdade é a chave do bom convívio social e um jeito de evitar conflitos e constrangimentos. Caso não seja identificada como mitomania (a mentira obsessiva-compulsiva), afirmar aquilo que se sabe ser falso – ou negar o verdadeiro – é uma maneira de proteger o outro. São as chamadas mentiras sociais. “Mentiras leves e inocentes são aceitáveis, mas a franqueza e a honestidade devem ser sempre privilegiadas em uma relação”, diz o psiquiatra Jairo Mancilha, PhD em neurolinguística.

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Mentiras sociais são diferentes da mitomania e servem como base para o bom convívio

A mentira também serve para proteger e manter o vínculo. “Às vezes a verdade nua e crua é crueldade. Tem que ter limite, mostrar dente demais magoa. Calar-se e esperar momento mais adequando para falar é a melhor saída”, explica Leila Tardivo, psicóloga e professora Instituto de Psicologia da USP.

A distinção entre uma “boa” mentira e uma prática desonesta está fundamentada na avaliação das consequências do ato. “A mentira é grave quando toma proporções intensas e a pessoa não assume os próprios atos, prejudicando a si própria e ao outro”, completa.

Preservar a própria privacidade ou santificar o morto também são motivos comuns e aceitáveis para lançar mão do recurso. Na minissérie “Maysa” (2009), a maneira como a diva da música brasileira morreu foi tratada em tom muito menos trágico do que a realidade.

A mentira também é aceita – e até louvada – em um caso extremo de mirar em um bem maior. Um caso clássico é o de Aracy Guimarães Rosa, mulher do escritor Guimarães Rosa. Funcionária do consulado de Hamburgo, na Alemanha, ela falsificou diversos passaportes para enviar judeus perseguidos pelo regime nazista ao Brasil durante as décadas de 1930 e 1940.

Claro que mentiu por razões nobres. Como já cantava o poeta Noel Rosa, morto em 1937, “saber mentir é prova de nobreza. Pra não ferir alguém com a franqueza, mentira não é crime. É bem sublime o que se diz mentindo para fazer alguém feliz”.


FONTE:http://delas.ig.com.br/comportamento/2013-04-01/entenda-por-que-voce-mente-todo-dia--e-isso-e-bom.html