segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Escolas brasileiras oferecem diplomas estrangeiros de ensino médio

Em busca de internacionalização, colégios brasileiros buscam parcerias com instituições de outros países para oferecer chance de sair da escola com dois diplomas

Alan Sampaio / iG Brasília
Falar inglês como um nativo e tentar intercâmbio no futuro
são os principais interesses dos alunos
 
Melhorar a proficiência dos alunos em inglês, garantir diferenciais diante da concorrência e facilitar a entrada de brasileiros em cursos universitários do exterior. São essas as justificativas das escolas brasileiras para oferecer a seus alunos a possibilidade de terminar o ensino médio com dois diplomas da mesma etapa: o brasileiro e o estrangeiro.
A popularidade da internacionalização das escolas brasileiras vem crescendo, apesar de ainda não haver dados consolidados sobre o tema. As parcerias são feitas nas instituições privadas, que têm organizado caravanas de diretores e professores para conhecer experiências de ensino bem sucedidas em diferentes países e aproveitá-las em suas instituições de alguma forma.

Alan Sampaio / iG Brasília
Walter Ribeiro, diretor do Colégio Mackenzie de
Brasília, recebeu representantes de escolas
estrangeiras interessadas em alunos brasileiros
 
Walter Ribeiro, diretor do Colégio Presbiteriano Mackenzie em Brasília, foi aos Estados Unidos, França e Finlândia com um grupo de diretores da capital. Recebeu visitas de representantes de instituições inglesas, canadenses e americanas interessados em popularizar seus sistemas de ensino no Brasil. Por fim, a escola optou pela alternativa mais escolhida pelos colégios brasileiros no momento: oferecer o high school americano aqui.
A etapa norte-americana da educação que equivale ao ensino médio do País será oferecida no contraturno das aulas. Os currículos de disciplinas como Matemática, Física, Química e Biologia serão integralmente revalidados pela Texas Tech University, parceira da escola e de outros 40 colégios brasileiros. No outro turno, os alunos terão aulas específicas do currículo dos EUA.
Oratória; história e política americana; economia e inglês (literatura, redação e gramática) são algumas das matérias obrigatórias de quem faz high school nos Estados Unidos. Aqui, as aulas também são (e serão, no caso do Mackenzie) dadas por americanos ou ingleses, sempre em inglês. Em 2014, além do colégio presbiteriano, mais dez escolas do País vão oferecer a modalidade.
“Esse era um sonho antigo da instituição e Brasília, com seu perfil cosmopolita por causa de todas as embaixadas aqui, era o local ideal para começarmos uma escola internacional. Os pais querem preparar seus filhos para o mundo e essa é uma oportunidade”, afirma Ribeiro. O convite para se associar à Texas Tech veio da própria universidade.
Rogério Abaurre Filho, coordenador nacional da Texas Tech University no Brasil, conta que a primeira parceria da instituição com escolas brasileiras ocorreu em 1999. “Essa é uma experiência bem sucedida em outros países. Mantivemos o programa em apenas uma escola brasileira até 2008. Este ano, já temos 2 mil alunos brasileiros no high school”, conta.

Domínio do idioma e intercâmbio
Alan Sampaio / iG Brasília
Alunos do 9.º ano do Colégio Mackenzie, Isadora,
Paloma, Manuela e João Pedro já passaram no
teste de proficiência em inglês
 
As aulas complementares nas 51 escolas brasileiras que serão parceiras da Texas Tech começa ainda no 9º ano do ensino fundamental. Manuela Rodrigues, 14, Isadora Martins Pereira, 14, João Pedro dos Santos Ferreira, 13, e Paloma Pimenta da Veiga, 13, passaram no teste de proficiência em inglês aplicado aos interessados em obter dois diplomas ao final do ensino médio e se preparam para começar o modelo em 2014.
Aprender a falar inglês como um nativo e tentar um intercâmbio no futuro são os principais interesses dos estudantes no programa. Nem o aumento na carga de estudos os faz perder a vontade de participar do projeto. Além da aula regular pela manhã, elas terão o calendário esticado em mais duas tardes inteiras por semana no colégio para cumprir o currículo.
“Pode até sobrecarregar, mas não estou com medo”, diz João Pedro, que está “fascinado” com o programa, porque acredita que será mais fácil se candidatar a uma vaga em universidade americana com o diploma. Manuela diz que, mesmo que não faça intercâmbio no futuro, a experiência vai incrementar seu currículo e “abrir fronteiras para o trabalho fora do país”.
Para Paloma, que sempre sonhou em fazer high school nos EUA, a oportunidade facilitou o convencimento dos pais. “Agora não preciso mais viajar. Minha mãe veio à reunião e gostou da proposta”, conta. Ribeiro conta que duas turmas já foram abertas (o limite é de 20 alunos por turma) e estão preenchidas. “Acho que teremos de criar mais”, comenta.
Os pais terão de desembolsar 497 doláres por mês, além da mensalidade regular, que varia entre R$ 1,2 mil e R$ 1,4 mil, para bancar as aulas extras para os filhos. O calendário seguirá os moldes brasileiros e os dois diplomas só serão entregues ao final do 3º ano do ensino médio. “O sistema educacional está se universalizando. O Ciência sem Fronteiras, por exemplo, nos leva a ir além”, diz Ribeiro.

Regras
           
O funcionamento das escolas privadas é controlado pelos sistemas estaduais e municipais de ensino. De acordo com o presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), José Fernandes de Lima, as regras só definem que todos os estudantes brasileiros têm de seguir as normas dos currículos brasileiros. O que a escola fizer além não é proibido.
“Se a escola acrescentar às aulas do currículo brasileiro alguma atividade que corresponda a um currículo de qualquer outro país, é permitido. Os sistemas devem estar atentos e acompanhar, porque a instituição tem de mostrar seu projeto politico-pedagógico para ser credenciada. O que temos de cobrar é que façam o mínimo exigido pelo Brasil”, afirma.
Lima ressalta que as regras do ensino médio preveem carga de 2,4 mil horas durante a etapa. A duração mínima é de três anos, sendo 800 horas a cada ano. Portanto, os diplomas não podem ser entregues antes desse período. “A mobilidade estudantil está crescendo. O que temos de cuidar é que aquilo que estabelecemos como mínimo não deixe de ser feito”, diz.
Na opinião do conselheiro, esses convênios devem aumentar. “A tendência é que esse tipo de modalidade cresça, porque o Brasil está se tornando protagonista. Temos recebido muitos estrangeiros e muitos deles querem voltar a seus países um dia. É muito interessante que haja esse tipo de convênio”, afirma.

FONTE:http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2013-11-11/escolas-brasileiras-oferecem-diplomas-estrangeiros-de-ensino-medio.html

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Cada dólar investido em tecnologia educacional exige nove em treinamento

Professor de Educação e Ciência da Computação de Stanford diz que compra de equipamentos é medida popular, mas muitas vezes gera desperdício

A compra de computadores e, mais recentemente, tablets por governos é uma forma de desperdício de dinheiro. A afirmação que pode parecer de algum avesso à tecnologia, pelo contrário, é do professor da Escola de Educação e do Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Stanford, Paulo Blikstein. “Para cada dólar investido em tecnologia é preciso nove dólares para treinar para o uso”, diz.
 
Especialistas de Stanford reunidos em São Paulo para um seminário da Fundação Lemann falaram na manhã desta terça-feira (14) dos caminhos para melhorar as escolas e promover a igualdade de oportunidades. Os principais investimentos apontados foram a formação de professores e gestores.
 
NYT
Para melhorar ensino, professores precisam ser treinados para
usar tecnologia
Blikstein, brasileiro que dirige o Transformative Learning Technologies, departamento que desenvolve tecnologias educacionais em Stanford, afirmou que os governos em geral fazem planos que possam mostrar resultados durante o tempo de mandato do eleito e por isso a compra de materiais é um recurso muito usado. “Em vez de gastar no equipamento e na formação que seria necessária, só a primeira parte é feita por várias vezes. Então a gente gasta metade do necessário durante anos e nunca o suficiente para obter a mudança”, comentou.
 
Colega da Faculdade de Educação, David Plank, defendeu o estudo dos resultados dos investimentos atuais na educação brasileira. “É preciso olhar para o aprendizado do aluno e para aquilo que realmente resultou em uma melhora, não adianta espalhar os recursos aleatoriamente”, disse.
 
Membro da Academia Internacional de Educação, Martin Carnoy, voltou-se ao básico. “Se eu tivesse que apontar apenas um investimento seguro, eu diria o professor. Todos os estudos apontam que a melhor formação dos educadores é que faz a diferença.”
 

Alunos preferem jogo que é bateria de testes educacionais a Facebook

Com pontos e medalhas, exercícios passam por jogo e ganham atenção em aula de escola pública de São Paulo

Um texto ou figura, uma pergunta e as alternativas para resposta. Na prática, o jogo educacional Ludz segue o padrão mais tradicional de qualquer exercício escolar, no entanto, alunos do 5º ano da Escola Estadual Henrique Dumont Villares, em São Paulo, dizem gostar do teste online tanto quanto de educação física e, quem tem internet em casa, conta que prefere usar o tempo livre para responder mais questões a entrar em redes sociais.
                                
ig
Aluna da Escola Estadual Henrique Dumont Villares responde
 a testes online em aula e até em casa


Ao acompanhar uma aula, a diferença parece estar em elementos simples que fazem com que a atividade se pareça a um vídeo-game. “Tô lendo rápido porque daqui a pouco aparece a velha do tempo”, explica Arthur Sabbadini, de 10 anos, se referindo a um desenho que aparece antes do tempo limite para responder expirar. Ele também faz questão de clicar em um botão que pode gerar uma dica, eliminar uma alternativa errada ou apenas gerar um desenho de um estudante com um comentário sem utilidade para achar a resposta. “É o colega”, explica Arthur. “Às vezes ele dá uma dica, mas às vezes só fala qualquer coisa.”
            
A colega Thamires Almeida, da mesma idade, conta que prefere “jogar Ludz” a entrar em redes sociais. “Eu não vejo nada de desafio no Facebook, prefiro fazer coisas que sejam divertidas e me deixem mais preparada”, comentou. A rapidez com que a menina encontrava as respostas para os problemas matemáticos de sequência chamou atenção até da diretora, Sonia Sprenger, que estava na sala para acompanhar a reportagem. “Você tem que ler aqui e contar as bolinhas da figura...”, comentava a educadora devagar com o dedo na tela quando a menina assinalou a resposta C, a correta. “Olha só, como pode? Em sala ela não vai tão bem assim no mesmo tipo de exercício”, comentou a diretora com a professora da sala.

 
            
 
Para a coordenadora pedagógica Maria Rita Silveira, o casamento entre tecnologia e educação “é perfeito”. Ela procura softwares livres na internet e organiza atividades para as salas que ainda não contam com o programa pago, comprado apenas por 40 escolas na rede estadual paulista cujos padrinhos empresários da ONG Parceiros da Educação adquiriram. “Agora que temos internet e estamos aprendendo melhor como organizar os alunos nestas atividades, a gente explora isso. Não é fácil sem um direcionamento, mas aqui temos professores que são verdadeiros desbravadores”, diz.        
   
A aula com o Ludz ocorre duas vezes por semana para cada turma, uma para responder testes de matemática e outra para língua portuguesa. Uma estagiária, também paga pela ONG, dá as instruções. A professora da sala acompanha apenas para chamar atenção de alunos que perdem o foco e observar possíveis dificuldades. Arthur, por exemplo, não sabia o que signifiva “verbete” em um dos problemas que leu e “réu” em outro, mas não pediu ajuda a ninguém. Acertou uma questão pelo contexto e errou outra e segue sem saber. “O conteúdo é parecido com o da sala, mas o bom é que aqui eles lêem muito mais”, comenta a professora da turma, Sonia Haquihara, que tem 26 anos de magistério. “Nunca parou de aparecer novidade, essa é mais uma que a gente vai incorporando.”
 

Universidade britânica usa cão para dar apoio a estudantes

Projeto incluiu Jack, shih tzu de três anos, em equipe que auxilia alunos com problemas de aprendizado


Uma universidade em Dorset, na região sudoeste da Inglaterra, está usando um cachorro para ajudar estudantes que precisam de apoio no aprendizado. Jack, um shih tzu de três anos, foi trazido para a Universidade de Bournemouth para auxiliar estudantes com problemas de saúde mental ou problemas físicos ou sensoriais.             

            
Carolyn Atherton, professora e dona de Jack, afirmou que ele é um animal calmo, mas se percebe que alguém está com problemas, ele corre para ajudar.

BBC
Dona diz que cão é calmo até perceber alguém triste ou perturbado

O trabalho de Jack foi criado como parte de um projeto junto com um grupo local de voluntários chamado Caring Canines ("Cães Atenciosos", em tradução livre).
 
Agora, o shih tzu passa o dia no escritório junto com sua dona nas aulas individuais e "atende" até 12 estudantes por semana.

Segundo Atherton, Jack ajuda os estudantes a relaxarem. Também ajuda na concentração e a lidar melhor com tarefas difíceis.

"Sempre pergunto antes aos estudantes se eles estão satisfeitos com a presença dele aqui. Até agora ninguém disse que não", afirmou a dona do cãozinho. "Ele sempre os faz sorrir", disse.
"Ele é um cachorrinho com uma grande presença, um personagem. Ele é muito relaxado, mas ele também tem seus momentos de maluquice."

"Todos nós achamos sua indiferença engraçada. Mas se alguém estiver chateado, ele é (rápido) como um tiro", acrescentou Atherton.

FONTE:http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2013-10-24/universidade-britanica-usa-cao-para-dar-apoio-a-estudantes.html

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Orientações curriculares são insuficientes, avaliam especialistas e gestores

Ministério da Educação elabora base curricular comum para cada etapa e que deverá ser seguida por todo o País

A criação de um currículo mínimo – e igual – para todos os estudantes brasileiros levanta polêmica entre pesquisadores, pedagogos e gestores há anos e, agora, preocupa o Ministério da Educação. Apesar de o país possuir documentos que orientam a organização das etapas de ensino, o MEC recrutou especialistas para elaborar uma nova base curricular comum.
            
Futura Press
Base curricular para alunos divide os especialistas
 
Para o secretário de Educação Básica do MEC, Romeu Caputo, esse é um processo “natural” depois de as Diretrizes Curriculares Nacionais terem sido aprovadas. Nos últimos 15 anos, integrantes do Conselho Nacional de Educação (CNE) debateram o assunto e elaboraram as orientações para cada etapa de ensino. Mas a avaliação é de que elas são insuficientes.
“Não teríamos como discutir essa base comum, cuja criação está determinada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, sem as diretrizes. Esse é um segundo passo, que vem de uma constatação a partir do diálogo do governo com sociedade e a academia: a de que nós poderíamos e deveríamos detalhar mais as orientações curriculares”, afirma Caputo.

Proposta para ensino médio: Mercadante defende revisão curricular 
                          
A constatação do secretário foi repetida por diferentes participantes de congresso educacional promovido na última semana pelo movimento Todos pela Educação em Brasília. Nos debates, que não eram sobre o tema, a organização curricular foi bastante citada. “Hoje, o discurso em educação já é mais coeso em torno do professor, dos currículos, da avaliação”, acredita Priscila Cruz, diretora-executiva do Todos pela Educação.
Paula Louzano, pedagoga e doutora em Política Educacional pela Universidade de Harvard, resume a argumentação de quem defende o estabelecimento de currículos mínimos mais detalhados. “É uma garantia de direitos. Todos precisam aprender a mesma coisa, mas hoje o menino da periferia aprende menos. Essa diversidade está gerando desigualdade”, critica.
Para a pesquisadora, estabelecer o que todo estudante brasileiro, de qualquer canto do país, tem de aprender não restringe o trabalho da escola. A perda de autonomia do professor e o receio de desvalorização do conhecimento regional são os argumentos de quem critica a definição de uma base curricular nacional.
“Temos de quebrar o paradigma. Esse discurso (de que padrão é desnecessário) é conservador, porque mantém o status quo. E ninguém nega que o professor tem de ter liberdade para ensinar. Mas ele precisa saber o quê”, afirma Paulo, que é professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Ela ressalta que as orientações atuais são vagas.
                          
Orientação para políticas
           
Além de orientar o trabalho dos docentes, a base curricular comum ajudará a definir políticas públicas. A análise, feita pelo secretário Romeu Caputo, se baseia nos programas conduzidos pelo MEC de formação de professores, aquisição de livros didáticos, avaliação nacional. Para Paula, é incoerente o país ter criado avaliações antes do currículo. “É uma inversão”, diz.
“A base não será uma camisa de força para os sistemas locais, mas ela deve ser suficientemente detalhada para orientar as políticas nacionais do MEC. O nível de detalhe é o que estamos discutindo nesse grupo de trabalho, que reúne gestores, especialistas, pesquisadores”, conta Caputo. O documento não tem data para ficar pronto.
As diretrizes atuais falam do tipo de educação que o Brasil deseja – para a inovação, valorizando a cidadania, os direitos humanos, contemplando o direito à entrada na universidade e no mundo do trabalho e valorizando a interdisciplinaridade de conhecimentos – mas não especifica, por exemplo, quais conteúdos ajudariam a alcançar esses objetivos.
O secretário acredita que, mais importante do que o documento, será debater essa ideia com os educadores. Os especialistas reconhecem que esse é um tema difícil, porque choca diferentes interesses. “Em minha trajetória como secretário de educação, nunca vi esse debate convergir. É um assunto espinhoso, que sempre teve resistência”, conta Binho Marques.
Marques foi secretário municipal e estadual de educação, governador do Acre e, agora, atua como secretário de Articulação com os Sistemas de Ensino do MEC. Para ele, a educação brasileira crescerá em qualidade quando os sistemas de ensino – municipais, estaduais e federal – se alinharem em currículos, formação de professores e avaliação. “Nessa ordem.”
“A escola tem de ter autonomia, mas não pode fazer o que quiser. O que o país pensa e quer para os seus filhos precisa ser contemplado em uma base curricular comum”, defende.

Discórdia na nomenclatura
           
No Ministério da Educação, os debates evitam falar em currículo nacional para não criar mais polêmica. Ainda há muitas discussões entre gestores e especialistas por causa da diversa nomenclatura utilizada por cada um: base nacional comum, padrão, currículo mínimo, orientações curriculares, diretrizes.
“Autonomia sem ancoragem é abandono. Um professor não pode fechar a porta da sala de aula e fazer o que quiser lá dentro, mas também não faremos uma sociedade transformadora sem autonomia da sala de aula, de professor e alunos. Não se deve confundir isso”, opina o superintendente executivo do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques.
O conselheiro do CNE Francisco Córdão, que elaborou muitas das diretrizes acredita que o país não precisa de mais documentos, mas reconhece que o currículo é tema pouco debatido na sala de aula. “As orientações precisam ser colocadas em prática e o currículo escolar é fundamental para ajudar o professor”, diz.
Caputo garante que as novas propostas não mudarão por completo a estrutura dos currículos atuais. Houve muita especulação, por conta de declarações do ministro Aloizio Mercadante, de que uma reforma curricular radical seria realizada. “O que estamos induzindo é o que já acontece no ensino médio inovador, por exemplo, baseados nas diretrizes atuais”, conta.
As experiências de escolas que aderiram ao projeto inovador coordenado pelo MEC são de escolas em tempo integral, que promovem integração de disciplinas, valorizam artes, esportes, preparação para o trabalho. “Não vamos impor currículo, mas promover mudanças e soluções”, afirma Caputo.

FONTE:http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2013-09-16/orientacoes-curriculares-sao-insuficientes-avaliam-especialistas-e-gestores.html

‘Anos finais do ensino fundamental precisam ser repensados’, diz pesquisadora

Superintendente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária critica a falta de políticas específicas para esses alunos

Divulgação
Anna Helena Altenfelder, Superintendente do
Centro de Estudos e Pesquisas em Educação,
Cultura e Ação Comunitária
Nos últimos anos, as políticas e os programas de governos estaduais, municipais ou o federal se concentram na educação infantil, no ciclo da alfabetização ou no ensino médio. Mas a trajetória escolar que os une – os quatro últimos anos do ensino fundamental, chamados de anos finais ou fundamental II – tem sido constantemente esquecida.
                           
Esse “esquecimento”, lembra a pedagoga Anna Helena Altenfelder, pode custar caro. Todo o investimento feito nas etapas iniciais pode se perder. “Se não encararmos o desafio de repensar o fundamental II, vamos perder esforços”, ela diz, categórica. Para ela, o país age como se a qualidade dos anos iniciais fosse naturalmente chegar aos anos finais.

Segundo ela, que é doutora em psicologia e superintendente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), essa lógica está equivocada. “Os indicadores mostram o contrário, estamos perdendo as conquistas”, pondera.

A pesquisadora, que atua também como formadora de professores, conversou com o iG sobre o tema no Congresso “Educação: agenda de todos, prioridade nacional”, organizado pelo movimento Todos pela Educação.

Confira os principais trechos da entrevista:

iG: Como você avalia os anos finais do ensino fundamental no Brasil?
Anna Helena Altenfelder: Essa fase é conhecida como “o ciclo esquecido”. Um dos fatores é que ele está dividido entre as redes municipais e estaduais. Além disso, existem poucas pesquisas focadas no que chamamos de ensino fundamental II. O próprio Plano Nacional de Educação pouco se refere a metas específicas. Essa fase não é considerada nas suas especificidades, nem nas políticas nem nas pesquisas.
iG: Por que isso acontece?
Anna Helena: Talvez porque, no Brasil, historicamente, houve um esforço em olhar o início da trajetória e depois o ensino médio. Como se a qualidade dos anos finais do fundamental fosse uma decorrência de um bom início. Mas o que a gente observa nos indicadores é justamente o contrário: temos avanços nos anos iniciais e os perdemos nos finais. É difícil dizer por que isso acontece. Essa divisão entre as redes, que ainda não têm um sistema articulado, atrapalha. As redes municipais acabam focando os anos iniciais do fundamental e as estaduais, o ensino médio. O fundamental II não se torna prioridade de nenhuma. Além disso, essa é uma fase muito específica, que traz uma grande mudança na organização da escola. Os alunos deixam de ter um professor, uma referência única, uma rotina, e passam a ter cinco professores ou mais, muitas vezes sem nenhum tipo de orientação. Não é um problema só da rede pública. Essas especificidades não são consideradas.
iG: Se o país não encontrar saídas para solucionar essas dificuldades vai perder as melhorias de aprendizagem que conseguiu com essa geração?
Anna Helena: Eu não tenho dúvida disso. Se não encararmos o desafio de repensar o fundamental II, vamos perder esforços. Não adianta pensar no ensino médio. Há uma evasão muito grande nessa fase, o índice de distorção idade-série é alto, há muitos meninos atrasados e nós sabemos que o aluno em atraso hoje é o que vai abandonar a escola amanhã, porque ele se desmotiva. Há um número enorme de meninos que não chega ao ensino médio.
iG: Quais problemas, além do estranhamento da mudança, marcam essa fase?
Anna Helena: É preciso entender a especificidade dessa faixa etária. É uma fase de transição, em que os alunos começam a procurar mais autonomia, querem protagonismo, sentem que não são mais crianças e precisam ser reconhecidos assim. É um desafio para a escola entender como dialogar com esse jovem, que está inserido num mundo com as novas tecnologias, que tem outro ritmo e, certamente, outras formas de aprender. A escola tem de estabelecer um diálogo com a cultura, o interesse e as necessidades deles. É um grande desafio, mas a gente precisa pensar numa revisão curricular, na reorganização dos tempos e espaços da escola, que são marcados por aulas de 50 minutos, em que um professor entra e outro sai da sala, muda o assunto, não tem conversa. Isso não responde mais às necessidades deles.
iG: Existem soluções possíveis, de curto prazo, para resolver esses problemas?
Anna Helena: A polivalência de professores é uma medida fácil de ser tomada, que eu vejo com bons olhos. Seria o aluno ter o mesmo professor por mais tempo no 6º e no 7º anos e depois ir aumentando a quantidade de docentes. Mas isso demanda assessoria a esse professor, um projeto pedagógico bem feito. Outra coisa seria repensar a organização dos tempos e dos espaços, buscar a interdisciplinaridade por meio de projetos que possam dar um sentido mais comum e articulado. Essa é também uma fase em que os pais se distanciam da escola e a escola não tem o empenho para chamá-los. Pensar uma política para trazer as famílias para perto também é boa. Outra possibilidade é criar maneiras de usar as novas tecnologias como canal de vinculação com o mundo deles, que é de cultura digital.
iG: As avaliações e os processos seletivos têm influenciado de maneira negativa os anos finais do fundamental?
Anna Helena: Tenho observado empiricamente que a preocupação com o vestibular chega cada vez mais cedo. Acho que, no país, acontece uma inversão: nós pautamos o currículo pela avaliação. É um evento perverso, porque deveria ser o contrário. O exame deveria ser feito a partir do currículo que é comum para todos. Isso acaba atrapalhando oportunidades de aprendizagem e de desenvolvimento de habilidades e competências que seriam importantes, como descobrir novas coisas para atuar melhor no mundo e não para passar num exame.
iG: Como temos de lidar com o tema da reprovação, sempre tão controverso, nessa fase? É preciso reprovar nessa etapa?
Anna Helena: Há uma discussão que é anterior a reprovar ou não, que não é feita. De nada adianta você reprovar um aluno se você não acompanha o processo de aprendizagem dele e não toma medidas efetivas para que ele aprenda o que não conseguiu. Do mesmo jeito de que de nada adianta aprovar se também não é feito esse monitoramento da aprendizagem. A reprovação não é um instrumento que possibilite aprendizagem, nem nessa fase nem em nenhuma outra. É importante que eles continuem no curso da escola desde que haja planejamento e ações efetivas para ajudá-lo a aprender o que precisa.

FONTE:http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2013-09-24/anos-finais-do-ensino-fundamental-precisam-ser-repensados-diz-pesquisadora.html

Dependência nas escolas de São Paulo vai sair do projeto Mais Educação

Ideia era que estudantes da rede municipal pudessem levar disciplinas para o ano seguinte para não ter de repetir série


Um dos pontos mais polêmicos do plano Mais Educação, série de medidas apresentadas pela Prefeitura de São Paulo para melhorar o ensino nas escolas da rede municipal, deve ser deixado de lado após o programa ficar aberto a consulta pública. A ideia que “converge” para ser descartada é a que possibilitaria o estudante do ensino fundamental de ficar de dependência de algumas disciplinas no ano seguinte sem precisar passar pela repetência.  
   

        O consenso surgiu após a Secretaria Municipal de Educação analisar, nos últimos 15 dias, as opiniões e críticas que recebeu sobre o Mais Educação. “Seria muito difícil viabilizar a dependência e foi quase unânime (na consulta pública) que seria inútil também carregar uma disciplina para o ano seguinte. Na opinião das pessoas, se algo tiver que ser resolvido em relação a alguma deficiência do aluno, que isto seja solucionado naquele ano mesmo, que o estudante não tenha que carregar nada para o ano seguinte. (...) Todas as opiniões (no governo) convergem para isso”, disse o secretário de educação, Cesar Callegari, ao iG .
Fabiana Carvalho/MEC
César Callegari vai deixar a Secretaria de Educação Básica do
Ministério da Educação até o fim do ano
Na reorganização do ensino fundamental que o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, anunciou em agosto, a secretaria de Educação vai alterar os ciclos e aumentar a possibilidade de repetência. Atualmente, os alunos podem ficar retidos apenas no 5º ano e no 9º ano. Na nova configuração, haverá três ciclos: de alfabetização (1º ao 3º ano), interdisciplinar (4º ao 6º ano) e autoral (7º ao 9º ano). Ao final do primeiro, segundo e na 7ª, 8ª e 9ª série do terceiro ciclo, aqueles que não aprenderam o mínimo que deveriam podem repetir de ano.
 
Callegari diz que Prefeitura de São Paulo não dará bônus a professores                          

Embora o número de anos em que pode haver retenção tenha sido ampliado de dois para cinco, Callegari respondeu de maneira otimista quando perguntado sobre a possibilidade dos números de reprovados aumentarem depois que o Mais Educação começar a valer. “Não vai ter reprovação, vocês vão ver”, respondeu de forma bem-humorada. As novas diretrizes serão implementadas na rede a partir do ano que vem. Essa é a mais profunda transformação no modelo educacional da cidade desde que o sistema de progressão continuada foi implementado, há 21 anos.

Os três ciclos
           
De acordo com a Prefeitura de São Paulo, objetivo do primeiro ciclo (1º ao 3º ano) é garantir que todas as crianças estejam alfabetizadas até os 8 anos de idade, meta estabelecida também pelo Ministério da Educação através do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa.
No segundo (4º ao 6º ano), o aluno passa a ter mais disciplinas, com um professor âncora até o sexto ano, não mais só até o quinto, e outros docentes que orientarão o desenvolvimento de projetos. Segundo Haddad, isso deve diluir o choque da mudança entre o universo do “único professor para o universo de vários professores”, que normalmente ocorre no quinto ano. E, no último (7º ao 9º ano), o aluno passa ater docentes especialistas para todas as disciplinas.
Além de mudanças na organização curricular e de avaliação, o plano Mais Educação inclui promessas de construção de creches , escolas de ensino infantil e 20 novos CEUs (Centro de Educação Unificado), que também se transformarão em polos da Universidade Aberta do Brasil (UAB) para oferecer cursos de graduação, especialização e mestrado a distância para professores .

FONTE:http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2013-09-28/dependencia-nas-escolas-de-sao-paulo-vai-sair-do-projeto-mais-educacao.html